Inteligência artificial na advocacia: seis mudanças que os advogados portugueses vão sentir em 2027
Blog

05 de novembro de 20268 minutos

Inteligência artificial na advocacia: seis mudanças que os advogados portugueses vão sentir em 2027

Que mudanças concretas vai a inteligência artificial trazer ao dia a dia de um escritório de advogados em Portugal? Foi a esta pergunta que procurámos responder no relatório A advocacia portuguesa em 2027, que a Legau publicou em outubro de 2026.

Para lhe responder, é preciso partir da realidade do país. O relatório reúne dados de 60 fontes, da Ordem dos Advogados ao INE, e mostra que um em cada três advogados portugueses trabalha sozinho, que três em cada quatro exercem em estruturas com menos de cinco advogados e que sete em cada dez se descrevem como generalistas. São advogados que, na mesma semana, tratam de uma partilha de herança, de um arrendamento e de uma contestação com o prazo a terminar.

Para quem exerce assim, saber que áreas do Direito estão mais expostas à IA diz pouco. O que interessa é perceber o que acontece ao trabalho, ao preço, àquilo que distingue um advogado dos colegas, à forma de crescer, aos clientes e a quem está a começar. Identificámos seis mudanças prováveis. Nenhuma é automática nem acontece de um dia para o outro, e cada uma decorre da anterior, pelo que vale a pena lê-las por ordem.

1. O trabalho do advogado muda por dentro

Com a inteligência artificial, o advogado deixa de ser quem produz o trabalho e passa a ser quem o orienta, verifica e decide. É uma mudança de fundo. As tecnologias anteriores ajudaram a trabalhar mais depressa, mas nunca fizeram o trabalho. A tramitação eletrónica mudou a forma de entregar uma contestação no tribunal, mas quem lê a petição, decide o que impugnar e escreve os argumentos continua a ser o advogado, como há trinta anos.

A IA generativa é a primeira tecnologia que entra no próprio trabalho jurídico. Resume uma petição e lista os factos alegados, um a um, para que o advogado decida quais impugnar. Compara a minuta enviada por um fornecedor com as posições habituais do escritório e assinala as cláusulas que se afastam delas. Prepara em minutos o primeiro rascunho de uma nota informativa que antes levava dias.

O advogado continua presente em todos estes passos, mas faz em cada um algo diferente. E há momentos que continuam a ser só seus, como a conversa com herdeiros desavindos ou a escolha da estratégia num caso difícil.

Numa prática generalista, a mudança não fica confinada a uma área. Chega a quase todos os assuntos, porque quase todos têm uma parte de análise e redação e outra de conversa, negociação e decisão. Para a maioria dos escritórios, o primeiro efeito será uma questão de proporções: menos tempo a redigir, mais tempo a verificar e com o cliente.

Há, no entanto, um custo que nem sempre se vê. Um rascunho feito em minutos não sai de graça, porque o esforço passa para quem o revê, e quem assina responde pelo que assina. Saber verificar passa a ser, por isso, a competência mais importante do advogado.

2. A IA vai pressionar o preço do trabalho jurídico simples

Se o trabalho passa a demorar menos, alguém vai perguntar quanto deve custar. Na maioria dos casos, será o cliente.

Durante décadas, o tempo foi uma boa medida do custo de um serviço jurídico e uma aproximação razoável ao seu valor, porque tudo dependia do esforço do advogado. A IA separa as duas coisas. Uma partilha bem feita vale o mesmo para os herdeiros, quer tenha levado dez horas, quer três.

Quem cobra à hora é o primeiro a sentir o problema, porque cada melhoria na forma de trabalhar lhe reduz a receita. Quem cobra um valor fixo ou tem avenças fica com o ganho, pelo menos até à renovação. Só que os clientes também usam IA. O particular que já pediu a um assistente de IA que lhe explicasse como funciona uma partilha, ou a empresa que sabe quanto tempo leva hoje a rever um contrato, vai querer ver isso refletido no preço.

Cada hora poupada acaba por ir para algum lado: para o cliente, para o rendimento do advogado, para atender mais clientes, para descansar ou para investir no escritório. Se ninguém decidir, o ganho fica quase sempre do lado do cliente, em descontos ou em horas que deixam de ser faturadas.

Na nossa leitura, a resposta não está em trocar uma forma de cobrar por outra, mas em ter um portefólio de modelos de preço: preço fixo para o trabalho simples e repetível, avença com âmbito definido para o trabalho recorrente, preço por fase nos litígios e hora para o que é novo ou imprevisível. O próprio Estatuto da Ordem dos Advogados manda atender a vários critérios na fixação dos honorários, e o tempo é apenas um deles.

3. A expertise jurídica passa a distinguir os escritórios de advogados

Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas de IA, o que distingue um escritório é a sua expertise jurídica. A ferramenta, por si só, não faz a diferença: qualquer colega pode subscrever a mesma e ter acesso ao mesmo conhecimento genérico.

A expertise junta o conhecimento da lei, da jurisprudência e da doutrina à experiência de anos de prática, e pode ser vista como um iceberg. À superfície está o trabalho feito: as minutas, as peças e os pareceres que correram bem. Logo abaixo, o porquê: a razão de ser de cada cláusula, as alternativas e os riscos de cada uma, o que se verifica sempre. Mais abaixo, a experiência acumulada: o que a outra parte costuma aceitar, como decide aquele tribunal, onde aparecem os erros do costume. E, no fundo de tudo, o juízo crítico de quem percebe que um caso é diferente e que a regra não serve.

Na maioria dos escritórios, só a primeira camada está guardada, quase sempre numa pasta de minutas. O resto vive na cabeça de uma ou duas pessoas e sai com elas pela porta ao fim do dia.

É aqui que a IA faz a diferença. Quando o raciocínio e a experiência do escritório ficam registados, a ferramenta deixa de produzir textos genéricos e passa a trabalhar como o escritório trabalha. Pela primeira vez, o saber de um advogado pode tornar-se um ativo do escritório, aplicado a muitos assuntos ao mesmo tempo, melhorado com o uso e ao dispor de toda a equipa, incluindo de quem acabou de chegar. Convém, ainda assim, que esse ativo fique sob o controlo de quem o construiu, num formato que não dependa de uma subscrição.

4. Com inteligência artificial, a dimensão do escritório pesa menos

A inteligência artificial permite a um escritório crescer sem contratar mais pessoas. Até agora, havia duas formas de crescer: trabalhar mais horas ou juntar mais gente. Para quem trabalha sozinho, a primeira esbarra no limite do dia e a segunda obriga a contratar, a receber um estagiário ou a partilhar escritório com colegas.

A IA abre uma terceira via, que é crescer com sistemas. O advogado que organizou o seu trabalho de partilhas e pôs por escrito o que sabe sobre elas consegue tratar mais partilhas ao mesmo tempo sem contratar ninguém, ou tratar as mesmas em menos horas. A pequena sociedade que organizou a revisão de contratos de fornecimento consegue servir mais clientes com a mesma equipa.

Não é um caminho fácil, até porque a base digital da profissão é estreita: só 21,8% dos advogados portugueses têm um programa de gestão de processos. Numa estrutura pequena, o maior custo raramente é a subscrição da ferramenta. É o tempo, porque quem organiza o trabalho é quem o faz, quem gere o escritório e quem angaria clientes. Além disso, lá fora, os grandes escritórios estão a integrar a IA mais a fundo do que os pequenos, e nada garante que em Portugal seja diferente.

Ainda assim, as estruturas pequenas têm uma vantagem real: as decisões dependem de uma ou duas pessoas. Não há comités nem projetos-piloto de seis meses. Um advogado pode escolher hoje o trabalho que mais repete e começar por aí.

5. A procura de serviços jurídicos vai mudar

A IA mexe na procura nos dois sentidos: retira ao mercado jurídico parte do trabalho simples e torna possível servir quem hoje não chega a um advogado. Por um lado, dá aos clientes meios para tentarem resolver sozinhos os seus problemas. Algum trabalho simples vai mesmo sair do mercado tradicional, porque o cliente o resolve com uma ferramenta que custa poucas dezenas de euros por mês.

Por outro lado, há muita gente com problemas jurídicos que não chega a nenhum advogado. Num estudo do World Justice Project, por cada 100 portugueses inquiridos, 81 tinham enfrentado um problema jurídico e só 16 recorreram a um advogado ou a outro serviço profissional. Muitas vezes, a razão é o custo: tratar um problema simples custa ao advogado mais do que o cliente está disposto a pagar. Ao mesmo tempo, há advogados com disponibilidade e vontade de ter mais clientes. A procura e a oferta não se encontram.

Se a IA baixar o custo de tratar estes problemas, passa a ser possível servir parte desta procura com outro tipo de oferta: serviços com âmbito e preço definidos à partida, serviços transformados em produto ou uma ferramenta de autosserviço criada pelo próprio advogado, com revisão a preço fixo.

O autosserviço jurídico vai existir de qualquer forma. A questão é saber se serão os advogados a oferecê-lo ou se outros ocuparão esse espaço. Antes de mais, porém, há uma condição simples e muitas vezes esquecida: o cliente tem de conseguir encontrar o advogado e perceber o que ele faz e quanto custa.

6. Os advogados estagiários vão aprender de outra forma

A IA acelera precisamente o trabalho com que os advogados estagiários aprendiam, e isso obriga a repensar a formação. No primeiro ano, um estagiário faz sobretudo pesquisa, resumos de processos e primeiras versões de requerimentos e de contratos simples. Era assim que se aprendia: com a primeira petição devolvida cheia de correções, com as dezenas de contratos revistos até se perceber o que foge ao normal, com as diligências em que se acompanhava o patrono.

Daqui nasce um paradoxo. À medida que este trabalho passa para sistemas, ganha peso quem verifica e decide. Mas verificar exige a experiência que se ganhava justamente a fazer esse trabalho. Se o patrono passar a fazer com IA o que antes entregava ao estagiário, a produção fica assegurada, mas a formação pode perder-se pelo caminho.

Um estudo recente com advogados de patentes nos Estados Unidos mostra bem este risco. Com uma ferramenta de IA, todos fizeram trabalho de melhor qualidade, sobretudo os menos experientes. Mas, quando tiveram de trabalhar sem ela, só os mais experientes tinham melhorado o seu juízo crítico. Entre os mais novos, a IA ajudou uns a aprender e substituiu a aprendizagem de outros.

Há, por outro lado, uma oportunidade. Quando a experiência do escritório está registada e integrada nas ferramentas, o advogado júnior deixa de trabalhar só com conhecimento genérico. Passa a ter à mão, em cada assunto, as perguntas, os critérios e os cuidados que os mais experientes levaram anos a aprender. O que antes se transmitia devagar, caso a caso, fica disponível desde o primeiro dia.

Nada disto dispensa o acompanhamento. Quem entra agora na profissão vai trabalhar a vida toda com estas ferramentas, mas só as usa bem quem consegue avaliar o que produzem. Simulações, feedback estruturado, mentoria e a análise de casos já encerrados vão ter de fazer parte da formação, de forma deliberada.

Por onde começar

Nenhuma destas mudanças exige grandes investimentos e não é preciso responder a todas ao mesmo tempo. Exigem algum tempo, algumas decisões e, quase sempre, vontade de experimentar.

Esta semana, escolha três tarefas de baixo risco, sem informação de clientes, e passe a fazê-las com IA nas próximas semanas, tomando nota do que lhe poupou tempo, do que teve de corrigir e de onde a ferramenta falhou. Neste trimestre, escolha o trabalho que mais repete e ponha por escrito o que sabe sobre ele: as perguntas que faz sempre, os erros que mais encontra e a razão de ser de cada cláusula. Até ao fim do ano, reveja o preço desse trabalho, explique numa página os serviços mais comuns do escritório e combine com quem está a começar a forma como vai aprender.

A nossa conclusão é que, nos próximos anos, a vantagem será menos de quem é maior e mais de quem começa cedo e aprende depressa. Pela primeira vez, as ferramentas que mudam o próprio trabalho jurídico estão ao alcance de quem trabalha sozinho ou numa pequena sociedade.

Descarregue o relatório completo. As seis mudanças, os quatro pilares do escritório e os seis focos para 2027 estão desenvolvidos no relatório da Legau A advocacia portuguesa em 2027, com todos os exemplos e figuras. Descarregue aqui o relatório gratuitamente.

Perguntas frequentes

Que mudanças vai a inteligência artificial trazer à advocacia portuguesa em 2027?

São seis: o advogado passa de produzir a orientar, verificar e decidir; o preço do trabalho simples fica sob pressão; a expertise de cada escritório passa a ser o que o distingue; torna-se possível crescer sem contratar; parte da procura resolve-se sozinha e outra passa a poder ser servida; e os estagiários vão aprender de outra forma.

Porque é que a IA pressiona o preço do trabalho jurídico simples?

Porque separa o tempo do resultado. Se um trabalho que levava dez horas passa a levar três, o cliente vai querer ver isso no preço. Quem cobra à hora perde receita a cada melhoria; quem tem um portefólio de preços ajustado a cada tipo de trabalho consegue ficar com parte do ganho.

O que distingue um escritório de advogados quando todos usam IA?

A sua expertise jurídica: o porquê de cada cláusula, a experiência acumulada e o juízo crítico. Quando essa expertise fica registada e integrada nas ferramentas, a IA deixa de produzir textos genéricos e passa a trabalhar como o escritório trabalha.

Como é que a IA muda a forma de aprender dos advogados estagiários?

A IA acelera precisamente o trabalho com que os estagiários aprendiam: pesquisas, resumos e primeiras versões. Ao mesmo tempo, se a experiência do escritório estiver registada, dá-lhes acesso a ela desde o primeiro dia. A formação tem de passar a ser intencional, com mentoria, feedback e simulações.

Fundamente melhor e mais rápido sem pesquisar duas vezes.

Junte-se aos milhares de advogados portugueses que já trabalham com a Legau.